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domingo, 29 de março de 2009

Bagdá, aranha e Roberto Carlos, tudo a ver - Valmir Santos

Na terra em que Valêncio Xavier viveu desde os anos 1950, um espetáculo como o que a curitibana ACRUEL Companhia de Teatro apresenta no Fringe, em última sessão hoje, tem tudo a ver, literalmente. Poucos escritores como ele, morto no ano passado, se apropriaram tão bem da imagem para exercê-la enquanto linguagem literária. A encenação de Marcio Mattana e Nina Rosa Sá não faz citação direta a Xavier, mas o tangencia com o recurso audiovisual como um dos elementos centrais da narrativa. Melhor, a teatralidade não é ofuscada, apóia a presença das atrizes, o despojamento de palco e a fruição de uma boa história mesmo concebida sobre uma dramaturgia em pedaços, mas que diz a que veio.
Fotos: Lina Sumizono/Clix

Eis o título desconstrutor de sentidos, As Ruas de Bagdá ou Aranha Marrom não usa Roberto Carlos, como a indicar o caminho a que o espectador está convidado a seguir. Um caminho feito de cenas cristalizadoras concorrendo com outras que o atravancam. Embarcamos no jogo de estranhamento dessas três mulheres (por Emanuelle Sotoski, Ligia Oliveira, Rubia Romani) vestidas de aeromoças, donas de insipidez e correção contidas no gestual e no uniforme, mas que são desfeitas aos poucos para que conheçamos suas inseguranças e crises existenciais, amorosas.

O espetáculo se recusa a cumprir a curva convencional de uma história de separação. Até que foque o plano intimista da casa em que duas amantes vão terminar a relação, somos introduzidos a um leque de informações com imagens e vozes em colagens ou projetadas para refletir o alheamento do outro e de si numa sociedade de consumo desembestado.

A essa interpretação chegamos sem que as figuras ou o suporte visual nos mastiguem mensagens doutrinárias para sacolejos políticos ou ideológicos viciados. Não. O discurso está contido na expressão artística, não se desprende dela em nome da ideia.

O espetáculo ergue uma coluna inteligente com frases ditas em contextos cotidianos, extraordinários ou no limite do absurdo. A essa trajetória interessantíssima, infelizmente, Mattana e Sá introduzem um atalho capcioso, a reprodução hiperbólica de um programa televisivo de auditório intercalado em três momentos.

A opção põe por água o cordão umbilical conquistado até ali com o público de forma instigante. Resulta concessão à mediocridade da televisão a que a maioria dos espectadores já está teleguiada. Basta o sorriso clichê da apresentadora, cacoetes à la Silvio Santos, Faustão ou Gugu Liberato, para parte da platéia aflorar certo histerismo de claque, estimulada justamente por criadores cujo projeto critica esse tipo de manipulação. Saímos do teatro com a sensação de traição por tal nivelamento.


No final, quando a atmosfera intimista avança e correlaciona tudo que se passou e foi dito, já perdemos a qualidade do contato esboçado. É bem feita a mudança de clima e o realinhamento com o drama mínimo, jamaias realista, mas ainda assim o desperdiço de energia lá atrás, com os quadros de auditório, se faz sentir. Uma pena.

Espetáculo: As Ruas de Bagdá ou Aranha Marrom não usa Roberto Carlos
Data: hoje, dia 29, às 21h (última apresentação)
Local: TEUNI - Teatro Experimental da UFPR

3 comentários:

  1. Uma crítica bastante sensível...
    Ana Ferreira.

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  2. Péssima é o cacete!.. vc que é um otário!!!

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